quarta-feira, 6 de dezembro de 2006


Um livro para o Natal


Nesta época de festas e presentes, queria deixar uma sugestão para uma prenda que decerto será do agrado da esmagadora maioria. O novo livro de Eduardo Nobre “Amélia, Rainha de Portugal” prossegue o inestimável serviço de divulgação de um passado que parecendo longínquo, ainda foi vivido pelos nossos avós, numa denominada Belle Époque que foi sobretudo, um período de viragem em direcção às grandes ilusões do século XX.
O livro completa os dois anteriores e faz justiça a uma figura de relevo da nossa história. A rainha D. Amélia foi antes de tudo, uma mulher espírito aberto e interessado nos progressos técnicos e sociais, curiosa do país onde foi chamada a ser consorte de um rei igualmente envolto numa aura de mistério e preconceito. Compreende-se este muro de silêncio que afinal é a justificação do regime saído do golpe de 3, 4 e 5 de Outubro de 1910. Há ainda que recordar o embaraço que ainda suscita o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 que consistiu na pedra basilar da instauração da república em Portugal. Como complemento à autêntica torrente de informação fotográfica que Eduardo Nobre nos oferece, sugiro a urgente leitura da biografia do rei D. Carlos, da autoria de Rui Ramos (edição do círculo de leitores). Obra igualmente séria e fruto de exaustiva pesquisa, procura desvendar alguns enigmas acerca da personalidade do rei que é um dos tabus do regime. No entanto, mais de cem anos de intensa propaganda e pior que tudo, do atávico desinteresse português, ergueram uma infinidade de obstáculos à verdade. Faltam documentos, talvez para sempre desaparecidos. Os autores morais – e muito provavelmente organizadores e financiadores – do crime do Terreiro do Paço, poderão ter criado falsas pistas e até destruído o processo do regicídio, talvez comprometedor em demasia para quem sempre quis criar reputações imaculadas. Mas a história que verdadeiramente interessa, a das provas documentais, dos testemunhos voluntários ou não, das confissões sem intenção de tal, acaba por pesar e fazer pensar quem pretenda saber mais. Como sugestão, consultemos algumas actas dos derradeiros parlamentos da monarquia, onde a total liberdade de expressão – impossível para os nossos dias – choca pelo descambar na ordinarice tasqueira, tão ao gosto nacional. A propósito e voltando ao tema do livro, António José de Almeida ( o encarregado pela organização da fabricação de bombas do PRP), dizia em plena sessão parlamentar, que desdenhava – embora dela beneficiando, claro está - , da amnistia promulgada por D. Carlos, amnistia essa “que não passava de um broche da rainha Orleães”. Imaginemos que no actual parlamento alguém insultasse assim a mulher do chefe do Estado. Se a isto acrescentarmos todo o tipo de infâmias e insinuações acerca da vida particular da rainha e do rei, o quadro parece completo. No entanto, o livro de Eduardo Nobre tem o mérito de nos mostrar as múltiplas facetas da personalidade da rainha. A soberana, a mãe ciosa da educação dos filhos, a mulher interessada no progresso científico num pais desinteressado, a protectora do património, mostram-nos uma D. Amélia bem diferente daquela que o belo e sensual quadro do museu dos coches parece consagrar. A rainha interessou-se deveras pela erradicação dos grandes males da época, desde a insalubridade em que grande parte da população vivia, até ao combate do flagelo da tuberculose. Os dispensários e sanatórios, os lactários populares e as cozinhas económicas, as creches onde se ensinava a higiene às crianças, são obras pouco conhecidas da rainha. Pelo contrário, o seu nome surge indelevelmente ligado à instalação do Instituto Pasteur em Portugal (Instituto Câmara Pestana), ao Instituto de Socorro aos Náufragos e à Assistência Nacional dos Tuberculosos. Esta mulher que surge em centenas de fotografias que o livro de E. Nobre publica, foi talvez, ouso dizer, uma percursora da assistência social.
Ao longo de quase duzentas páginas, vemos talvez pela primeira vez, fotografias de extremo interesse, feitas em momento de descontracção, sem que o “ofício de reinar” ditasse esta ou aquela conveniência. A família real surge como ela era no dia a dia, despida de arrogâncias e sobrancerias postiças. As relações familiares colocavam Portugal no jogo das potências europeias e quanto a isto, sabemos que D. Carlos e D. Amélia tinham ideias muito firmes e claras que se pautaram sempre pela preservação do conjunto territorial nacional. A habilidade da desprezada diplomacia real, não terá afinal garantido a existência dos hoje denominados PALOP e do correspondente peso da nossa língua no mundo?
As últimas páginas são dedicadas à quase hoje esquecida visita da rainha a Portugal (1945) e o seu grandioso e perturbante funeral em Lisboa. Numa época de censura, ela representou aliás, o único símbolo vivo de uma liberdade perdida.

Nuno Castelo-Branco

1 comentário:

M Isabel G disse...

Nuno
Olá
Parece-me que este azul é um nadinha violento para se ler.
Parabéns pelo blog
Um abraço
Isabel